A estratégia genial de um irmão mais velho

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Se tem uma coisa que rouba a paz dos pais é a tal da frustração para encontrar limites. Porque, ao não encontrá-los, acaba-se recorrendo imediatamente à violência ou ao autoritarismo, justamente pelo medo de perder a mão na educação dos filhos ou pela raiva de não se sentir respeitado. Isso gera medo e ansiedade sobre o futuro que nos aguarda.

Foi numa situação dessas que me peguei na seguinte cena. Eu havia deixado meu celular no sofá e João, que tinha por volta de 3 anos, pegou o aparelho. Ele começou a mexer no celular, mas nós temos um combinado muito claro sobre o uso de celular pelos meninos aqui de casa. Assim, como não é permitido esse uso isolado pelas crianças, pedi o celular e o lembrei do combinado, no que ele simplesmente disse: “Não!”

Ou seja, só esse primeiro “não” já me engatilhou as primeiras reações, pois me levou para o mudo “luta”. Mas ainda munido de paciência e auto controle, incentivei que ele me entregasse o aparelho por conta do combinado. E, como você deve imaginar, ele repetiu que não entregaria. Me levantei da cadeira e me aproximei do sofá, o que já demonstrava que a criança dentro de mim tinha sido afetada, e agora tomava conta do adulto que sou (ou pelo menos deveria ser). O pedido prosseguiu, no que ele repetiu o “não”.

Nisso Gabriel (com três anos e meio a mais do que o irmão) passou pela sala e percebeu o movimento. Meu tom de voz já havia sido alterado e fui mais enfático, no que João pulou do sofá e saiu fugindo pelo corredor da casa.

“Joãaao!”, já falei mais forte, dando a entender que dali a confusão estaria armada.

Mas Gabriel estava ligado! E enquanto meu diálogo interno não favorecia minha reação (fique atento à isto, pois vou explicar no final), Gabriel olhou pra mim, piscou, sorriu e foi atrás do irmão. E então pude ver a cena mais de longe. Gabriel vai correndo na direção do irmão e faz um barulho como se um telefone estivesse tocando.

Ele vira para o irmão e gentilmente pede para atender: “João, o telefone está tocando! Posso atender?”

“Sim”, respondeu João, e entrega com muita facilidade o aparelho para o irmão. Mas se você acha que Gabriel veio me entregar o celular, espere a sequência.

Gabriel: “Alô, alô? Oi!! Você quer falar com quem? Ah, com o papai? Espere aí!”

E Gabriel disse ao irmão baixinho: “João, tem alguém querendo falar com o papai no telefone! Que tal você levar o telefone pra ele correndo?”

E João, nesse momento, responde: “SIM, SIM! Eu vou muito rápido....Shhiiiiiu (fez um barulho imitando algo bem veloz)”.

João: “Toma, pai, o seu telefone...”

Sorri com um misto de curiosidade pelo ocorrido e constrangimento pela situação, uma vez que Gabriel usou algo simples que havia aprendido comigo, mas que naquele momento não fui capaz de usar, porque meu diálogo interno me fez pensar que João estava fazendo hora com a minha cara, e não precisando de ajuda.

Agradeci ao João e vi Gabriel retornando todo maroto pelo corredor e com um sorriso de quem sabia que tinha usado a ferramenta certa, no momento certo, e tinha sido realmente muito eficaz (que orgulho que fiquei!!! Hahahahah).

Enquanto eu estava medindo forças com uma criança, resposta do diálogo interno que entendeu que João estava fazendo algo errado e atrasando meu trabalho, Gabriel estava mais presente e entendeu que tanto eu quanto João precisávamos de ajuda. Por isso sua resposta foi nesse sentido e não no sentido do confronto.

Lembre de nunca esquecer

1. Crianças são crianças, e precisam ser trabalhadas dentro do seu universo infantil;

2. Os adultos somos nós, e por isso precisamos ser o ponto de equilíbrio da casa;

3. Ter ferramentas é VIDA! E a que foi usada aqui, pelo Gabriel, se chama: gatilho da história;

4. Construir Relações Fortes e Saudáveis com os filhos é totalmente possível, mas é preciso que haja respeito mútuo, ferramentas adequadas e muita empatia sobre o universo das crianças;

5. Gabriel só soube o que fazer porque teve o exemplo da minha parte. E, com calma e paciência, ele enxergou muito mais do que eu, o que precisa ser um alerta enorme para mim;

6. João não foi forçado a entregar o celular, como eu quase estava fazendo. Mas Gabriel provocou uma situação em que a autonomia do menino não foi comprometida. O gatilho do lúdico e do faz de conta fez toda diferença aqui.